E há coisas que estão fora de todo o tempo humano.
A mulher subiu a escada, deixando apenas uma luz acesa na sala, voltada para rosas pálidas numa grande jarra negra.
Entrou no seu quarto e da janela viu a noite.
A música cessara; a casa parecia apagar-se fundida na treva exterior. Mas era preciso mais para definir o vasto mistério de tudo.
Então, da sua alta janela escura, a mulher pôs-se a cantar. Primeiro num murmúrio, depois cada vez mais alto. Talvez outras janelas tenham-se iluminado na casa e nas redondezas; a dela permaneceu escura.
Cantava sem se importar com nada mais, cantava jorrando fios de música sobrea as coisas todas, como tentáculos. E do seu canto foi brotando o mundo: dele nasceram as árvores e os carros e as casas; os caminhos dos amantes; as grutas da noite, e o ventre do dia; a morte nascia dessa música; e a vida também.
Lya Luft - A Sentinela
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