"Eu feri o coração de alguém?",
perguntei espantada. "Feriu", me respondeu a velha, "e feriu seriamente. Falo daquele jovem que ontem, da varanda, você cumprimentou." "Mas como?", disse eu. "Qual foi a causa? Por acaso, sem querer, deixei cair alguma coisa em cima dele?" "Não", me respondeu a velha. "O golpe fatal partiu desses seus olhos: você o fitou e ele sentiu o coração em chamas." "Ai, meu Deus! (Eu estava cada vez mais espantada.) Meus olhos expelem algum mal que vai ferir os outros!" "É isso", concordou a velha. "Seus olhos, minha filha, têm uma luz venenosa que você não conhece. Mas o fato é que o rapaz definha, o pobre miserável; e se, o que não creio", continuou a caridosa velha, "seu coração cruel se recusar a consolá-lo, será entregue à terra dentro de poucos dias," "Deus seja louvado", respondi. "Eu sentiria muito. Que tenho de fazer para ajudá-lo?" "Filhinha", me esclareceu a velha, "ele não deseja mais nada senão vê-la e conversar com você. Só seus olhos podem impedir que ele morra: o olhar que o mal causou servirá de remédio." "Oh, mas estou tão contente", tratei de responder, "e, já que é só isso, que ele venha me ver quantas vezes quiser."
Moliére - Trecho Escola de Mulheres - Tradução de Millôr Fernandes
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